Todos nós reconhecemos o papel da mobilidade urbana na qualidade de vida das cidades. Não é de hoje que muito precisa ser feito e que a politica de transporte, de maneira geral, sempre foi negligenciada – longe da atenção que deveria ter.

Nós, aqui em Niterói, que temos uma relação metropolitana no nosso ir e vir pela cidade, percebemos claramente essa realidade, seja nos engarrafamentos, seja no transporte público.

Com o surgimento da Pandemia do Coronavírus, muitos estudos estão sendo desenvolvidos e especialistas estão elaborando reflexões sobre os impactos do necessário isolamento e sobre a dinâmica do novo normal.

Tive contato esses dias com um artigo escrito pelo especialista Willian de Aquino e seus colegas do escritório Sinergia, escritório que inclusive prestou algumas consultorias para a cidade de Niterói, desde a época do PITT (Plano Integrado de Transito e Transporte) desenvolvido pelo Prefeito, Urbanista e Professor João Sampaio. Eles fizeram avaliações de apoio aos desenhos do Jamie Lerner, e também estiveram presente nas duas consultorias de PDTU (Plano Diretor de Transporte Urbano da Região Metropolitana do Rio de Janeiro) – ou seja, eles conhecem muito bem os números do transporte e da mobilidade urbana da nossa região.

Nesse artigo, encontrei algumas reflexões impactantes enquanto previsão:

A perda de renda irá levar a uma redução das taxas de geração de viagens. As para o trabalho serão impactadas com o aumento do desemprego. As viagens, as supérfluas em primeiro lugar e as não essenciais a seguir, deverão ser fortemente reduzidas ou eliminadas. Viagens para lazer e outras atividades irão diminuir muito, tanto em coletivos quanto em automóveis.”

Eles estimam que haverá uma queda da ordem de 1% nas viagens urbanas em transporte privado para cada 1% de queda do PIB , e nos transportes coletivos de 0,8% . Logo o fluxo de automóveis até meados de 2021 nas áreas urbanas poderá cair até 10% em relação a 2019 – antes das medidas emergenciais de isolamento social – calculado em função da queda do PIB, e cerca de 8% para os coletivos.

– “Mas, com a pandemia, hábitos também estão mudando. Pesquisas do IPEA e IBGE indicam que 25% das profissões e atividades tenderão a ser deslocadas para trabalhos em casa, então cerca de 30% das pessoas aí passarão a trabalhar com uso intensivo da internet. As que adquiriram novos hábitos tenderão a se manter neles. Pode-se, por isso, estimar em 3,5% a menos de 8 viagens em veículos particulares e 2,5% em coletivos.”– afirmam eles.

Em seus estudos e dados acumulados, a equipe estima que uma parcela dos usuários de transportes coletivos poderá se motivar a mudar para os transportes individuais. Em geral, quando se implanta um sistema de transporte coletivo de boa qualidade a captura média de usuários de automóveis é da ordem de 4% dos coletivos. Isso é um alerta interessante para a importância de termos qualidade do transporte coletivo e também para a relação de confiança que será necessária construir com os usuários – sobre tudo no novo normal. Nos transportes coletivos, uma parcela não é cativa e o usa por interesse econômico, tempo de viagem, conforto, conveniência, etc. Se houver uma motivação forte, como por exemplo a segurança em relação à contaminação, muitos optarão pelo automóvel.

No Plano Diretor de Transportes Urbanos da Região Metropolitana do Rio de Janeiro – PDTU, entre 2005 e 2015, houve um crescimento anual do número de viagens na Região Metropolitana do RJ, na ordem de 2,9% para transportes individuais e de 1,3% para coletivos. Isto evidencia cada vez mais o “caso de amor” com os automóveis, motos e veículos com aplicativos.

Avaliando essas questões, o grupo faz um alerta importante, que, se configurar será bem desastroso para o equilíbrio da prestação do serviço de transporte publico coletivo:

“…em uma primeira avaliação estima-se, ressaltando que foram adotadas premissas pela total falta de experiência na Historia da mobilidade urbana em casos desta magnitude, que a demanda de viagens em automóveis irá cair cerca de 5% do fluxo de 2019, enquanto o de coletivos poderá cair da ordem de 40% do fluxo” (Baseando nas informações disponibilizadas pelo PDTU – 2015).

Isso acarretará enormes prejuízos como mostram a seguir:

“O deslocamento urbano custa ao País (estimativas da ANTP – Associação  Nacional de Transportes Públicos) cerca de 550 bilhões de reais por ano, dos quais 80% pelo transporte individual, advindo de congestionamentos. Se o sistema de transporte público, que transporta mais de 70% das viagens diárias se colapsar, apesar de seu custo econômico ser só de 20% do total, este custo econômico anual poderá aumentar em mais 60%, ou seja, mais 300 bilhões de reais em deseconomias urbanas, com brutal ônus para a Nação. Estes valores foram estimados ainda sem as mudanças dos fluxos entre modos acima apresentada, que deverá ocorrer se não forem tomadas medidas tempestivas nos transportes coletivos.”

O artigo é muito interessante e proativo também. A equipe planeja uma série de recomendações das quais sugiro a leitura, dividindo em medidas emergenciais e mudanças a médio prazo. Dentre as emergenciais, sugere que deve ser implantada uma Política Nacional Emergencial de Transporte Público Social, para permitir combater questões de riscos graves e até letais à saúde da população e a sobrevivência de parcela significativa da sociedade. Entre outras:

“medidas emergenciais deveria ser a priorização da circulação urbana para os transportes ativos com alargamento de calçadas, implantação de bloqueios e priorização nas vias. A implantação de faixas exclusivas para os coletivos aumentará sua velocidade e representará menor quantidade de veículos para realizar as viagens, logo menos custos operacionais. São imprescindíveis a mudança da rede de linhas para que as de curta distância tenham tarifa reduzida e estejam integradas em transportes de maior capacidade. A reorganização da frota dará mais segurança para a saúde, ao concentrar a demanda, facilitar o controle da operação e as medidas de higienização.”

A longo prazo, eles fazem algumas considerações preocupantes, a de que muitas empresas operadoras de ônibus ficarão ainda em maior dificuldade financeira e operacional, muitas delas falindo e o sistema de transportes entrando em uma situação muito grave, em alguns lugares até caótica. Na maioria das cidades, são as únicas que transportam as pessoas de menor renda.

Outro alerta é que “também as operadoras, públicas e privadas, de metro, ferrovia, hidrovia e VLT precisam ser incluídas nesta preocupação, em especial pela sua importância estrutural nas áreas urbanas.” 

Não é nenhum um pouco exagerado afirmar que “as redes de transporte de média e alta capacidade são patrimônios urbanos fundamentais para a mobilidade com qualidade que se deseja para as cidades no futuro.”

Convido aos eleitores a leitura completa dessa reflexão, pois isso será ponto importante na discussão do nosso futuro urbano, principalmente nas discussões propositivas que faremos nessas eleições! Quanto mais consciência tivermos desse grande problema, melhor abraçaremos as soluções para afastar esse possível colapso.

Niterói tem forte relação na sua mobilidade urbana com municípios como São Gonçalo, Itaboraí e Maricá, mas também, com o a capital Rio de Janeiro e todas essas conexões serão afetadas, promovendo grandes desequilíbrios.

O debate se faz importante e urgente!

( Clique aqui para baixar o artigo de Willian de Aquino e seus colegas do escritório Sinergia)

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