
Íldiko Marcella Tholt de Vasconcellos, nascida em Budapeste, na Hungria, e radicada em Niterói, foi homenageada pelo vereador Felipe Peixoto com a Medalha Felisberto de Carvalho, concedida a pessoas que se destacaram na área pedagógica em nosso município. Professora da Cultura Inglesa por 25 anos, Íldiko gentilmente nos enviou por e-mail seu agradecimento para que pudéssemos publicá-lo.
Íldiko Marcella Tholt de Vasconcellos, nascida em Budapeste, na Hungria, e radicada em Niterói, foi homenageada pelo vereador Felipe Peixoto com a Medalha Felisberto de Carvalho, concedida a pessoas que se destacaram na área pedagógica em nosso município. Professora da Cultura Inglesa por 25 anos, Íldiko gentilmente nos enviou por e-mail seu agradecimento para que pudéssemos publicá-lo. Segue abaixo o texto:
Um relacionamento pessoal
Ao receber o convite para ser agraciada com a Medalha Professor Felisberto de Carvalho, duas perguntas martelavam meu cérebro e me impediam de começar a escrever minhas palavras. Sentia que as respostas seriam o eixo de tudo:
1ª. qual a razão do convite e
2ª. qual o sentido da honra de receber tal medalha.
Comecei pela razão ou razões, mas respostas hipotéticas (é porque sou bonita, simpática, inteligente, etc.) me fizeram ver que meu espelho não condizia com a descrição que a poeta Sylvia Plath faz em seu poema Espelho (1961),
Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo imediatamente
Do jeito que for, desembaçado de amor ou aversão.
Não sou cruel, apenas verdadeiro
O olho de um pequeno deus, de quatro cantos.
O meu espelho não era verdadeiro nem exato, era um grande mentiroso porque estava embaçado de amor, de gratidão e minha auto-estima fazia de meu espelho o lago de Narciso,
Agora sou um lago. Uma mulher se dobra sobre mim,
Buscando na minha superfície o que ela realmente é.
Então logo se volta para aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Desisti de saber a resposta à minha primeira pergunta por medo de me afogar como acontecera com Narciso ao apaixonar-se por sua própria imagem e passei para a segunda razão: qual o sentido da honra de receber tal medalha.
De imediato me ocorreu que havia uma razão pessoal que talvez os ilustres vereadores desconheçam.
Cheguei ao Brasil aos 6 anos de idade, com meus pais e uma irmã, refugiados da II Grande Guerra na busca pela liberdade. Após a quarentena na Ilha das Flores, recebemos autorização para irmos ao continente procurar moradia e trabalho. Graças á ousadia, ou petulância de minha mãe que não sabia nada do português a não ser SIM e NÃO, conseguiu que fosse matriculada imediatamente numa turma de alfabetização no Colégio Joaquim Távora.
Ali aprendi minha primeira frase
Eva ganhou um ovo de vovô.
na
Última flor do Lácio, inculta e bela,
(És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…)
Olavo Bilac (poeta brasileiro _ 1865 a 1918).
Nossa querida Língua Portuguesa, uma das últimas das filhas do latim. Inculta fica por conta de todos aqueles que, até hoje, a maltratam (falando e escrevendo errado), mas que continua a ser bela, belíssima.
E, a partir desta frase, passei a fazer parte de um grupo, depois de outro, e outro e assim por diante, até que me tornei professora de Português-Inglês e obtive minha cidadania e a liberdade de fazer as minhas próprias escolhas neste país de encantos mil.
E agora, a Medalha Professor Felisberto de Carvalho, mestre sábio que, ao final do século XIX, já sabia que livros de leitura seriam o arcabouço na formação de várias gerações em diferentes espaços, rurais ou urbanos. Segundo Vivaldi Moreira, advogado e presidente da Academia Mineira de Letras em 1991, FELISBERTO de CARVALHO
mestre extraordinário da infância e da juventude, (…) espalhou em seus livros tudo que havia de alma, coração, sabedoria e ciência. Seus trabalhos desvirginaram nossa inteligência, ensinaram-nos de verdade. A mocidade de várias gerações de tudo a ele.
Se, no momento do convite senti grande alegria e honra, agora com esta análise das razões, descubro a responsabilidade que me foi entregue pelas mãos do Vereador Felipe Peixoto:
a de espelhar todos aqueles que tem o aval da sociedade para exercer a nobre profissão de educar e promover a inclusão social de todos os membros do nosso município, apesar da multiplicidade de influências e respeitando a diversidade.
Em meu coração sinto uma mistura de sentimentos como:
Júbilo, conscientização de meu papel como símbolo de meus pares e, acima de tudo, de missão cumprida.
Mark Twain (escritor, humorista e romancista norte-americano) nos conta que é condição humana
Daqui a vinte anos ficarmos mais desapontados com o que não realizamos do que com o que foi feito.
A responsabilidade de ser um professor, um educador, nos remete à peça didática do dramaturgo irlandês George Bernard Shaw, intitulada Pigmalião (1912).
Um professor-pesquisador aposta poder transformar uma rude vendedora de flores numa dama, e consegue, mas não se dá conta que não apenas a ensinou a falar corretamente, andar, comer ou vestir-se adequadamente, ele a fez um ser humano mais pleno que, agora, cobra dele a responsabilidade de tê-la deslocado para um contexto diferente. Somos aqueles que moldam vidas, deixam marcas, educando e construindo um país de oportunidades e de igualdades. Pensemos sempre em Brasil, pensar em todos é pensar em si mesmo. Cito o autor inglês Albert Pine, autor americano do final do século XIX e início do XX
O que fazemos por nós mesmos, morre conosco. O que fazemos pelos outros e para o mundo, fica e é imortal.
Peço permissão para um poema que escrevi para meu pai:
Encontro marcado
Folhas, folhas, folhas de papel, todas da mesma cor,
O tempo colore todas uniformemente de amarelo velho e nos vincos ouro velho,
Cada vez mais finas, transparentes, puídas pelas traças da vida.
A memória nosso cupim tudo destrói, rói, mutila,
Uma imagem vem se aproximando… meu pai trazido pela sua letra , sua tinta, seus documentos,
Hoje reencontrei meu pai!
Tínhamos esse encontro marcado há muito, fiz tudo para pospô-lo,
Frágil, um dente de aço herança maldita da fome nos campos de refugiados, precisava alimentar as filhas primeiro, sempre!
Alimentou com seu saber e com a certeza de que saber não se tira de ninguém…
É preciso saber para sobreviver, encontrar a razão de viver, mesmo com fome, com incertezas, sem futuro. O pão nosso de cada dia… o saber.
(18/07/2004)
Agradecimentos Finais
Gostaria de agradecer AOS MEMBROS DESTA ILUSTRE CÂMARA MUNICIPAL DE NITERÓI a oportunidade de compartilhar desta alegria como uma das representantes eleitas da classe de professores. Outrossim, agradeço ao VEREADOR FELIPE PEIXOTO não só pela indicação, mas sobretudo por sua preocupação constante em legislar privilegiando a multiplicidade de influências, atendendo a esta diversidade e sempre levando em conta a nossa querida cidade de Niterói como base para o combate às gigantescas diferenças sociais que determinam a nossa realidade.
Faço pública minha gratidão à CULTURA INGLESA por ter tido enorme contribuição em minha formação profissional, me incentivando a sempre buscar por mais e melhor, dando suporte a cursos e exames extras que, apesar de grandes desafios na época, me fizeram ser aquela que sou hoje.
Quero também agradecer à ANA LÚCIA ZULLO, gerente da Filial Icaraí 1, à INGRID HOFFMAN, gerente da Filial Icaraí 2 e à CLÁUDIA SARMENTO, gerente da filial Itaipu, por terem pensado em mim para receber esta homenagem.
À MINHA FAMÍLIA agradeço terem sempre abraçado meus projetos, por vezes grandes viagens, e me ajudado a concretizá-los. Obrigada AOS MEUS AMIGOS por terem sempre acreditado em mim, me apoiado e formado parcerias que me renderam realizações incontáveis
Agradeço ainda a todos os meus ex-alunos, desde aquele primeiro, há 50 anos atrás, a quem dava aulas particulares de matemática para poder pagar meu curso de inglês. Foi um elemento essencial porque me mostrou claramente que Matemática… NEVERMORE, NUNCA MAIS. Devo a todos os alunos, de todas as idades, a minha vida profissional prazerosa.
Mais uma vez, O MEU MUITO OBRIGADO.


